Escrito por Redação Dom, 06 de Novembro de 2011 23:41
Em 2007, a Comissão Europeia lançou como um dos grandes desafios da investigação em transportes “conceber e desenvolver um sistema de ônibus inovador, de elevada qualidade, que demonstre todo o potencial de uma nova geração de redes urbanas de transportes por ônibus e que estimule as cidades europeias a apostar em novos sistemas de transporte coletivo mais atrativos e que contribua para promover a posição competitiva dos fabricantes e operadores europeus.” Em Setembro de 2008, como resposta a esse desafio, tem início o projeto European Bus System of the Future (EBSF), com conclusão prevista para Agosto de 2012.
Depois de alguns em desenvolvimento deste projeto, é possível iniciar a divulgação dos principais aspetos inovadores resultantes do trabalho. Entretanto, muitos dos quais já estão em teste em algumas cidades europeias. Esta é primeira abordagem ao tema do ônibus europeu do futuro baseado no projeto de investigação European Bus System of the Future (EBSF) . Nesse sentido, esta abordagem está orientada por forma a transmitir uma imagem geral sobre o projeto, seus objetivos, principais marcos e blocos de desenvolvimento.
A Problemática
Hoje, o ônibus continua a posicionar-se como a solução universal para um desenvolvimento urbano sustentável, sendo responsável por cerca de 80% do transporte púbico europeu. Com o aumento do congestionamento e os problemas ambientais sentidos cada vez mais nas cidades europeias, torna-se vital encontrar formas de aumentar a sua atratividade, o que implica olhar de forma integrada para o veículo, a infraestrutura e o serviço.
A Visão
Globalmente, o projeto EBSF pretende contribuir para aumentar a atratividade e a imagem das redes de ônibus nas cidades europeias, através da adoção de novas tecnologias no veículo e nas infraestruturas e de boas práticas no serviço, integrado numa perspectiva sistémica.
Adicionalmente a esta componente mais técnica, pretende-se que esta perspectiva sistémica seja alargada também ao próprio sistema de atores nele envolvido - autoridades organizadoras e municípios, operadores e fabricantes. Pela primeira vez na investigação europeia de transportes, este conceito é plenamente aplicado, com os principais fabricantes de ônibus (Man, Volvo, Irisbus-Iveco e Evobus) a colocarem as suas valências industriais ao lado dos operadores e autoridades num projeto competitivo.
Tal fato faz com que o EBSF assuma grande importância estando a ser desenvolvido por um conjunto de 46 entidades, representando 10 países europeus.
O Conceito de ônibus “Ideal”
O conceito de ônibus ideal corresponde ao veículo de transporte coletivo que simultaneamente dá resposta às necessidades dos usuários que dele beneficiam nos seus deslocamentos diários (frequência, segurança, conforto, …), dos gestores que define os níveis a que o serviço deve responder (investimento moderado, diminuição do congestionamento, promoção do desenvolvimento urbano e imagem, …), do operador que gere e opera uma determinada frota (menores custos operacionais, flexibilidade, …) e dos fabricantes que desenvolvem os veículos.
Infelizmente, apesar de todos os desenvolvimentos e processos de inovação que têm vindo a ser realizados ao longo dos últimos anos, o ônibus continua a ser percebido de um
um modo pouco atrativo, demonstrando que a aposta feita na componente tecnológica tem sido insuficiente para a sociedade em geral altere a sua percepção sobre este modo de transporte.
Assim, o conceito do futuro ônibus europeu (EBSF) coloca a Inovação como aspecto central de todo o desenvolvimento, e presente em todas as suas dimensões:
• Sistema: Identificação das necessidades e requisitos dos utilizadores, definição de indicadores chave de desempenho, arquitetura e requisitos do sistema e subsistemas (veículo, infraestrutura, serviço)
• Componente Técnica: Desenho de protótipos de veículos e componentes de infraestrutura, ferramentas de simulação, conceitos operacionais e custos associados
• Aplicações Práticas: Teste das tecnologias e conceitos inovadores em ambiente real de operação
• Visão Estratégica: Visão do EBSF, recomendações para normalização, implementação da estratégia, contribuição para a Agenda Europeia de Investigação no domínio do autocarro.
O Enfoque: Inovação
As soluções inovadoras que estão a ser desenvolvidas e testadas no EBSF cobrem uma grande diversidade de aspectos pelo que aqui se destacam somente alguns exemplos dessas soluções em cada uma das 3 áreas de desenvolvimento. Mais informação e detalhe poderão ser obtidos através da página de internet do projecto em www.ebsf.eu.
No Veículo
No que ao veículo se refere, o EBSF faz a identificação e especificação de soluções técnicas e tecnológicas tendentes a diversos tipos de melhorias a diversos níveis: posto de condução, energia consumida, acessibilidade ao veículo, desempenho operacional, modularidade interna e externa, sistemas de guiamento, plataformas tecnológicas embarcadas, etc.. Refira-se que é, naturalmente, ao nível do veículo que mais se destaca a colaboração empenhada dos fabricantes de material circulante, tendo todos contribuído para um veículo melhor.
Das diversas soluções encontradas, destacam-se, a título exemplificativo:
» A melhoria do Posto de Condução, através da observação e análise, do detalhe de especificações e da produção de recomendações cobrindo os aspectos tão diversos como Eficiência e Conforto, Acesso ao lugar, Ergonomia, Visibilidade, Dispositivos e elementos de actuação, Eficiência na condução e Segurança.
» A Acessibilidade no e ao Veículo, através do desenvolvimento de soluções que permitem melhores acessos e facilitam a movimentação de passageiros optimizando o tempo nas paragens (simulação de fluxos), optimizando o sistema de abertura e fecho de portas, explorando sistemas de guiamento vertical e permitindo diferentes configurações de lugares disponibilizados.
A Modularidade, através de soluções que a permitem melhorar do ponto de vista externo, através da análise conceitual de diferentes cenários de modularidade externa do veículo procurando uma maior adequabilidade e adaptabilidade em função do número de passageiros a servir ao longo do percurso (por exemplo, em situações em que existem procuras fortes num tronco comum e procuras mais rarefeitas nos extremos a servir),e do ponto de vista interno, através da incorporação de assentos rebatíveis eletronicamente e assentos deslizantes, permitindo que um mesmo veículo se adapte facilmente a diferentes níveis de procura
. Na Infra-estrutura
No que diz respeito à infraestrutura, o EBSF aborda os diversos elementos fixos do sistema de transportes, nomeadamente as paradas, os corredores e as políticas de transporte e regras de trânsito para os serviços urbanos de ônibus, os interfaces, as questões associadas ao back-office, entre outros.
Das diversas soluções encontradas, destacam-se, a título exemplificativo:
Soluções de back-office, através de centros de coordenação multi-frota com diferentes aplicações telemáticas, que podem ir desde a transmissão de dados e análise de bilheteria utilizada até aplicações de diagnóstico remoto ao nível do veículo.
Novos desenhos de abrigos de passageiros, definidos de acordo com os requisitos identificados pelos passageiros, operadores e autoridades, cidades, serviços e comércio local. O desenho de abrigos (pontos) pretende transmitir uma nova imagem do sistema, com novos serviços associados e suportes de informação e comunicação, maior integração na cidade, aumento do conforto, etc., tendo ainda como principais características a capacidade de serem facilmente relocalizáveis e corresponderem a uma aposta forte no uso de energias alternativas.
No Serviço
No que se refere ao serviço, a aposta principal do projeto EBSF está na inovação dos sistemas tecnológicos e de informação, nomeadamente através da informação ao passageiro, gestão de frota, gestão energética, assistência em viagem, diagnóstico remoto, monitores, informação e entretenimento.
No entanto, também existe uma pesquisa forte ao nível dos equipamentos de integração, como, por exemplo, a redução do número de antenas, a melhoria de interface entre veículos e centros operacionais, estabelecimento de novos protocolos de comunicação, ou ainda, no desenho e utilização de ecrãs multiplicação para todo o tipo de aplicações virtuais.
Próxima Etapa
2011 está sendo o ano chave do EBSF no que diz respeito à verificação da aderência das propostas à realidade das cidades europeias, já que terão início (ou continuarão, em
alguns casos) os testes em operação. Estes testes decorrerão em 7 cidades (Roma, Bremerhaven, Budapest, Gotemburg, Madrid, Rouen, Brunoy), com períodos de demonstração que variam entre os 6 meses e os 18 meses.
Em conclusão
Poder-se-ia dizer que parte do que é proposto neste projeto já existe. Quem esteve presente no workshop do ITS Portugal teve oportunidade de ver que a Carris e a Rodoviária de Lisboa, como outros operadores rodoviários portugueses, têm em operação alguns dos sistemas tecnológicos aqui referidos: centros de controle de tráfego, sistemas de informação em tempo real ou ainda monitores a bordo com o objectivo de informar e entreter durante a viagem. O “golpe de asa” do EBSF, a sua grande inovação, é a aposta na integração e no desenvolvimento conjunto de diversas aplicações. De facto, o EBSF tem na diversidade e na integração a sua grande mais-valia, procurando tornar claro que o conjunto veículo, infra-estrutura e serviço é mais forte que a simples combinação das partes, mas também (e talvez sobretudo) a capacidade de envolver num mesmo grupo de trabalho os diversos tipos de agentes, muitos dos quais normalmente funcionam em contextos de pura competição.
Daniela Carvalho, (TIS), in TR 94